Os 39 Artigos de Religião e a Salvação

Os chamados 39 Artigos de Religião é um documento doutrinário que ajudou a moldar a teologia e a espiritualidade da tradição anglicana. Hoje, quando se pensa em igrejas e tradições reformadas, majoritariamente as pessoas pensam em presbiterianos, puritanos e até mesmo em batistas reformados (apesar destes últimos serem, infelizmente, adeptos da heresia donatista, coisa incansavelmente combatida pelos Pais da Reforma). Dificilmente alguém lembra dos anglicanos, a despeito de nomes como J.I. Packe, J.C. Ryle, Thomas Cranmer, Martin Bucer, dentre tantos outros.

Seja como for, os 39 Artigos de Religião são, sem sombra de dúvida, um documento nitidamente reformado, como veremos nesta breve exposição de sua soteriologia.

A Corrupção da Natureza Humana.

Os 39 Artigos de Religião afirmam que todo homem que vem ao mundo é, devido a queda de Adão, “de sua própria natureza inclinado ao mal” (Art. IX). Afirma também que, sendo assim, “toda pessoa que nasce nesse mundo merece a ira e a condenação de Deus” (Art. IX).

Esse corrupção é tão profunda, dizem os 39 Artigos, que após a queda de Adão, o homem já não pode “converter-se e preparar-se a si mesmo por sua própria força natural e boas obras” (Art. X). Em outras palavras, com a queda de Adão, o homem perdeu o seu livre-arbítrio, pelo menos no que diz respeito a capacidade de voltar-se para Deus.

As Boas Obras.

A primeira coisa que observamos nos 39 Artigos de Religião é que as Boas Obras são muito importantes para a vida cristã. Elas são incapazes de justificarem o pecador, mas “seguem a Justificação” (Art. XII). Como fruto da Justificação, as Boas Obras são “agradáveis a Deus em Cristo, e brotam necessariamente duma verdadeira e viva Fé; tanto que por elas se pode conhecer tão evidentemente uma fé viva como uma árvore se julga pelo fruto” (Art. XII).

Mas, e as Boas Obras feitas por aqueles que não possuem fé no Cristo? Sobre isto, os 39 Artigos de Religião ensinam que as mesmas “não são agradáveis a Deus, porquanto não procedem da Fé em Jesus Cristo”. Em outras palavras, na vida do cristão as Boas Obras são necessárias e fruto da graça de Deus, enquanto que nos ímpios, são inúteis do ponto de vista da Justificação.

A graça justificante.

Mas, se é assim, como pode o homem ser salvo? Se as Boas Obras dos cristãos são fruto do trabalho de Deus, e as Boas Obras dos ímpios não os deixam mais perto da graça justificante, o que justifica o homem, afinal?

 O Artigo XI merece ser lido na íntegra: “Somos reputados justos perante Deus, somente pelo mérito do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo pela Fé, e não por nossos próprios merecimentos e obras. Portanto, é doutrina mui saudável e cheia de consolação a de que somos justificados somente pela Fé, como se expõe mais amplamente na Homília da Justificação”.

A predestinação para a vida.

A predestinação é um tema amplamente debatido entre várias escolas de interpretação. Os 39 Artigos de Religião evitam entrar em especulações desnecessárias, mas afirmam que, sim, há uma predestinação para a vida. “A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra” (Art. XVII).

A soteriologia apresentada nos 39 Artigos é monergista, ainda que muitos prefiram chama-la de calvinista ou agostiniana. O que é monergismo? É o ensino de que a Salvação é uma obra operada unicamente por Deus, sem a participação do homem. É muito comum entre os teólogos modernos a visão sinergista da salvação, pois muitos acreditam que o homem possa cooperar com Deus em prol de sua própria salvação. Não é este o ensino das Escrituras, nem dos 39 Artigos de Religião.

“Do Senhor vem a Salvação” (Jonas 2: 9). Deus, por sua Graça, concedeu ao seu povo uma “eleição para a vida” (Art. XVII), de modo que “os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando em tempo devido” (Art. XVII). Uma vez que muitos confundem, erroneamente, teologia reformada com puritanismo, e que outros imaginem que puritanismo seja, historicamente, algo homogêneo, o jeito de ser anglicano é descartado sem maiores considerações como coisa exótica, ou pior, como reformados em cima do muro. Por outro lado, é preciso admitir que atualmente o anglicanismo mundial se assemelha a casa da mãe Joana. Contudo, historicamente, o anglicanismo é parte legítima da ampla tradição reformada, e muitos buscamos viver a luz dessa herança.

Aproveite para ler também:

Sola Scriptura no Anglicanismo: o princípio positivo.

O Lado Norte da Mesa do Senhor.

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