A teologia é a letra que mata?

“… o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, e o Espírito vivifica” (II Cor 3:6).

Esse texto é pouco compreendido por alguns grupos evangélicos, os quais insistem na interpretação de que o mesmo seria uma condenação do apóstolo Paulo ao estudo das Escrituras, em especial do labor teológico. Por esta causa, não é incomum encontrar ainda hoje pessoas que abominam a Teologia, o estudo sistemático da fé cristã e assim por diante.

Essa interpretação ignora, por exemplo, que o estudo das letras, no sentido de fazer teologia, de se buscar compreender as Escrituras, é coisa louvada pelas Escrituras. Por exemplo, quando S. Paulo diz a Timóteo, seu discípulo: “… desde a sua meninice, sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (II Tim 3:15).

Mas se a letra que mata não é a Teologia, nem o estudo das Escrituras, o que é? Para encontramos a resposta basta considerar o contexto no qual Paulo adverte sobre a letra que mata. Olhemos especialmente para o versículo 7:

“E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória” (II Cor 3:7).

Essa letra que mata, denominada no versículo 7 de “ministério da morte”, é identificado pelo apóstolo Paulo com algumas expressões de fácil interpretação:

“Gravado com letras em pedras”. O que foi gravado em pedras? Se recordamos a história do povo de Deus no Antigo Testamento, nos lembraremos da Lei cujo símbolo máximo são as dez palavras (decálogo) que Deus com seu próprio dedo registrou em duas tábuas de pedra. Por mais que a Lei de Deus seja perfeita, justa e boa, não tinha a capacidade de salvar o homem de seus pecados. A Lei revela o pecado, mas não resolve o problema. O remédio é dado por Deus por meio do Evangelho, o papel da Lei é fornecer o diagnóstico.

“… veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés”. Esse acontecimento citado por Paulo, sobre os filhos de Israel não serem capazes de olhar para o rosto de Moisés devido a glória de Deus nele refletida, está em Êxodo 16: 34 ss.

“…[a] glória do seu rosto, a qual era transitória”. Observe que Paulo, ao dizer que a “letra” (Lei) é o “ministério da morte” e a “letra” que “mata” não a esta menosprezando. Não se trata disso. Ele apenas argumenta que aquela “glória”, que vinha de Deus e portanto era algo bom, teve seu lugar no tempo, mas passou. Paulo, na verdade, tem em mente aqueles cristãos primitivos, geralmente judeus convertidos à fé da Igreja, que insistiam que a fé precisava estar unida às observâncias legalistas do código mosaico. Esse é o “mistério da morte”, essa é a “letra” que “mata”.

Observamos, portanto, que identificar o “ministério da morte” e a “letra” que “mata” como sendo uma referência a Lei não é algo arbitrário. É o que Paulo claramente está dizendo. Interpretar como sendo uma condenação aos estudos ou a teologia só faz sentido para quem leu o texto isoladamente, sem considerar em momento algum o contexto.

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