Por que o “Livro de Oração Comum” continua relevante?

Rev. Marcelo Lemos

Uma das maiores riquezas da tradição anglicana é o Livro de Oração Comum (LOC). Hoje ele pode causar estranheza em muitas pessoas, seja pela falta de familiaridade, seja pelo seu linguajar clássico já desconhecido pela maioria das pessoas.

O Rev. Jonatas Bragatto, membro da Comissão de Culto e Doutrina da Free Church of England, comenta que “é permitido modernizar o culto da Igreja, desde que mantido 50% do que vem estabelecido pelo Livro de Oração Comum”. Mesmo quando se faz necessária uma atualização na linguagem ou mesmo no formado do culto da Igreja, não se cogita abandonar o Livro de Oração Comum. Isso nos leva a concluir que o LOC, apesar de sua longa idade, continua relevante hoje. Mas, por quais razões?

Lex crendendi, Lex orandi

O culto oferecido pelo Povo de Deus é um reflexo de sua fé. Isso se dá de modo natural. Mesmo quando as pessoas não se dão conta, o culto que elas oferecem a Deus está impregnado de camadas e mais camadas de significados teológicos, exegéticos, espirituais, eclesiológicos, denominacionais, históricos e assim por diante. Recentemente, ao terminar meu sermão em uma Igreja pentecostal que me havia convidado, o pastor local sussurrou no meu ouvido: “O irmão pode também fazer o apelo?”. Surpreendido pela saia justa, tentei pensar rapidamente e dei um jeito de tornar o apelo natural do sermão um pouco mais enfático, a fim de não causar constrangimento para aquele pastor, nem para mim.

Em última análise, o que aconteceu ali foi o choque entre eclesiologias, teologias e liturgias diferentes, não? Os pentecostais entendem o apelo como um tipo de sacramento evangélico, pelo qual o pecador precisa passar para ter o nome escrito no livro da vida. Para mim, teólogo anglicano e reformado, há somente dois sacramentos, e o apelo certamente não é um deles. Na verdade, a forma moderna de apelo, tão comum na maioria das Igrejas evangélicas, parece ter sido inventada por Charles Finney; certamente não foi inventada nem usada pelos apóstolos de Jesus. Portanto, na realização ao não de um único gesto litúrgico – neste caso o apelo – estão presentes inúmeras camadas de significação.

Por isso a liturgia é um “lex crendi, lex orandi”, ou seja, aquilo que nós cremos influencia em nosso culto. E aqui encontramos uma das razões que tornam o Livro de Oração Comum relevante ainda hoje, pois nele encontramos o registro da fé histórica da Igreja cristã, sob o prisma dos princípios reformados, e tudo isso codificado em forma de adoração privada e também comunitária para a Igreja de Deus. Sendo assim, ainda que as inovações no culto sejam permitidas, devem ser sempre criteriosamente analisadas, pois o que importa no culto oferecido a Deus não é nossa disposição em inovar, mas nossa disposição em manter os marcos antigos da sã doutrina. Por outro lado, o desejo por mais e mais inovações tem levado o evangelicalismo e seu culto por caminhos bastante tortuosos.

Diante do Trono

Quem já leu alguns dos meus textos sobre liturgia já me viu dizer que a liturgia da Igreja é uma antecipação escatológica. Sou repetitivo aqui, pois até hoje não encontrei definição melhor para o culto que o Povo de Deus oferece. Um dos bispos pioneiros da nossa Free Church of England, tem uma expressão também apropriada, que diz que o culto é uma “adoração diante do Trono de Deus”. Quando falamos de antecipação escatológica, a ideia é que experimentamos já agora o culto celestial que S. João profetizou no Livro da Revelação, ou seja, trata-se de admitir que, aqui e agora, a Igreja se apresenta ao Seu Deus diante do Seu Trono. Como diz um hino pentecostal, “não sei se a Igreja subiu, ou se o céu desceu, só sei que está cheio de anjos de Deus subindo e descendo neste lugar”.

Nós reformados somos muito rápidos em apontas os erros dos irmãos pentecostais, contudo, em palavras como a do trecho citado do hino acima, encontramos várias camadas e dimensões que refletem maravilhosamente a espiritualidade litúrgica. Os pentecotais clássicos são um tanto “puritanos” em sua liturgia – me refiro a ausência de uma liturgia mais elaborada, e a ausência de rubricas, vestes e símbolos; ainda assim, sua imaginação litúrgica costuma ser mais viva e biblicamente correta que a de muitos cristãos históricos, hoje tão adeptos do racionalismo.

No culto anglicano, expresso nas liturgias do Livro de Oração Comum, podemos encontrar uma rica e bela imaginação litúrgica, mas o que ele nos traz é muito mais que apenas imaginação. O LOC não somente nos leva a imaginar o culto celestial, mas nos transporta para Diante do Trono através de símbolos, palavras, gestos, orações, hinos e, especialmente, por meio dos Sacramentos unidos à Palavra. A relevância disso para a Igreja de hoje é facilmente demonstrável, tendo em vista que as influências do mundo têm transformado igrejas em clubes sociais, ou em espaços de diversão popular que pouco diferem do entretenimento que o mundo já oferece ao pecador.

Espiritualidade reformada

Alguém pode pensar que o LOC é apenas uma das diversas expressões litúrgicas na história da Igreja. Esta é uma observação correta. Por qual razão, então, os anglicanos reformados fazem opção pelo Livro de Oração Comum e não por outra liturgia? Sendo mais preciso, porque adotar o LOC de 1662, ou outro que o siga do modo próximo (como o editado pela FCE), e não outro texto litúrgico? Isso se deve ao fato de que o Livro de Oração Comum não abandonou a longa tradição de culto cristão, mas também não se apegou a antigas fórmulas que ofuscavam a glória do Deus Trino ou as verdades evangélicas. A espiritualidade e liturgia anglicanas desejam unir a riqueza da igreja de sempre com a voz profética da reforma protestante. Somos uma jurisdição da Igreja de sempre, católica, e somos reformados.

Apesar das inovações e provocações por parte dos chamados anglo-católicos, o fato inconteste é que o anglicanismo, em sua eclesiologia, espiritualidade, doutrina e culto, é uma tradição genuinamente reformada. E genuinamente católica também. Este é um aspecto do ethos anglicano que tem muito a oferecer para a igreja de nosso tempo, ora apegada a velhas e mortas fórmulas, ora sequestrada pela pirotecnia novidadeira; ou, ora presa a uma mentalidade sectária absorta numa anti-catolicidade donatista, ora refém de um liberalismo incrédulo ou de um ecumenismo irresponsável, que a fazem perder completamente a identidade.

Muitos leitores podem ter chegado a este texto por motivos errados. Parece que algumas pessoas já esperam algo ruim do anglicanismo. Outros, esperam que o que imaginam de errado sobre o anglicanismo seja verdadeiro, pois desejam o mesmo erro. Quando as pessoas chegam a textos como estes – bem raros no Brasil, infelizmente – tendem a ficarem surpresas. Por isso a tradição anglicana, e também o seu valioso Livro de Oração Comum, permanecem tão relevante hoje quanto sempre foram.

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